Não é só em Portugal que o mercado de arrendamento está “na ordem do dia”. O aumento das rendas também tem sido notícia no país vizinho, tendo o Banco de Espanha (BdE) realizado um estudo para analisar o setor e a relação proprietário-inquilino.

Segundo o relatório do regulador, que se apoia em dados do idealista – a única fonte de informação utilizada pelo BdE para analisar os preços – e de outras entidades, como a OCDE e o Instituto Nacional de Estatísticas do país, é possível retirar algumas conclusões sobre o mercado. Entre elas está o facto das rendas terem disparado – subiram em média 50% em relação aos níveis mínimos –, sobretudo nas grandes cidades, e da falta de poupanças e da precariedade laboral estarem a aumentar a procura de imóveis para arrendar. Estes são os 10 pontos-chave mencionados no estudo do BdE:

1 – Um em cada quatro espanhóis arrenda casa
Os dados mostram que há mais inquilinos agora, em 2018, que há alguns anos: no ano passado, 23,9% da população vivia numa casa arrendada, mais que os 19,4% registados em 2005. Os números, ainda distantes dos existentes noutros países europeus – e semelhantes aos verificados em Portugal –, dispararam a partir de 2013, quando o Governo eliminou as ajudas fiscais a quem comprava casa.

2 – O mercado é muito heterogéneo
Há em Espanha várias realidades, no que ao mercado de arrendamento diz respeito. Madrid e Barcelona estão noutro nível, seguidas dos arquipélagos, ou seja, as quatro regiões onde mais famílias vivem em casas arrendadas são as Ilhas Baleares (28,3%), a Catalunha (26,3%), Madrid (23,6%) e as Ilhas Canárias (19,5%). Já regiões como Galiza, Aragão, Múrcia ou Extremadura viram o peso do arrendamento “emagrecer”.

3 – A disparidade chega aos preços
Baseando-se em dados do idealista, o BdE conclui que, entre os mínimos registados em 2013 (o pior ano da pior crise económica espanhola das últimas sete décadas) e maio de 2019, em plena fase de recuperação económica, as rendas aumentaram em média cerca de 50%.

Em Barcelona e Palma de Maiorca o aumento é superior a 50% enquanto em Santa Cruz de Tenerife, Valência, Las Palmas, Madrid e Málaga o aumento é superior a 40%. Por seu turno, em Huesca, Cádiz, Jaén e Cidade Real, o aumento é de apenas 1%.

“A procura pelo arrendamento residencial aumentou sobretudo em alguns municípios que ofereciam melhores oportunidades, quer de formação quer de emprego”, esclareceu o BdE.

4 – Habitação ganha atratividade como investimento
À semelhança do que acontece em Portugal, muitos investidores optaram por comprar uma casa para a colocar posteriormente a arrendar, uma forma do proprietário ter maior rentabilidade, aproveitando-se do facto das rendas terem disparado. Segundo dados do idealista, o negócio de comprar para arrendar oferece rentabilidades de cerca de 7,6%. Um valor que aumenta no caso das rendas comerciais e de escritórios.

Também neste caso há diferenças entre cidades, com Múrcia a ser a mais rentável (7,6%) e San Sebastián a menos (3,8%).

5 – O aumento da procura aumenta a renda
Para o BdE não há dúvidas: o aumento da procura de casas para arrendar faz disparar o valor das rendas pedido pelos senhorios aos inquilinos. Sobre este tema, o regulador espanhol esclarece que “diferentes dados de natureza agregada sugerem que há um conjunto de fatores económicos e demográficos que terão contribuído para o aumento da procura do arrendamento residencial” e a consequente subida de preços. Quer isto dizer que as condições precárias do mercado laboral terão impulsionado a procura de casas para arrendar.

6 – A precariedade laboral faz disparar a procura
Também em Espanha estão a aumentar os requisitos exigidos pelos bancos para concederem empréstimos, o que significa que quem quiser comprar casa terá de ter um valor de entrada considerável, cerca de 20% do preço de aquisição. Um cenário que contribuirá para que muitas pessoas, sobretudo jovens, optem por arrendar em vez de comprar, conclui o estudo do BdE.

7 – Boa parte do salário “vai” para a renda
O preço das rendas e a precariedade do trabalho ajudam a explicar como está o mercado de arrendamento em Espanha. É que boa parte do salário é gasto a pagar a mensalidade da casa. Uma em cada quatro famílias destina mais de 40% do seu vencimento líquido para para a renda, bem mais que a média dos países desenvolvidos (13,1%).

8 – Há menos oferta pública de casas para arrendar
O estudo também analisa as razões pelas quais a oferta de casas no mercado de arrendamento não está a crescer da mesma forma que a procura. Um dos problemas é que há menos oferta pública de imóveis para arrendar: em 2018 chegaram ao mercado menos de 2.500 habitações, muito menos que as 18.600 de 2006.

9 – Só 10% das casas estão nas mãos de empresas
O estudo do BdE permite ainda concluir que a entrada no mercado de Socimis (o equivalente às recém-criadas SIGI em Portugal) e de outras empresas especializadas no setor não contribuiu para aumentar a oferta de imóveis disponíveis. Os números são esclarecedores: apenas uma em cada 10 casas está nas mãos das empresas, pelo que a maioria está na posse de particulares.

10 – Não é certo que o Alojamento Local afeta de forma direta
Sobre o hipotético impacto do Alojamento Local (AL) na subida dos preços, o BdE assegura que “o aparecimento de novas formas de arrendamento em algumas das grandes cidades espanholas (…) poderia competir com a oferta de arrendamento residencial tradicional”.

O regulador revela, no entanto, que “os trabalhos académicos disponíveis são pouco conclusivos em relação ao efeito quantitativo do arrendamento turístico nos preços do arrendamento para primeira habitação (…)”. “Não se pode deduzir que haja uma relação causal, com incidência generalizada, entre os preços do arrendamento residencial e a oferta de arrendamento turístico para o conjunto da economia”, conclui o BdE.
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